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 A estreia veio. Meses e meses se passaram. Em cartaz, ele continuou. O Oscar veio também. Mas, agora que a temporada de premiações já passou, e que — ainda bem — diversos outros lançamentos nacionais irão abrilhantar nossos cinemas, talvez seja a hora perfeita de lembrar que esse filme não apenas merece, como continuará sendo discutido por muitos e muitos anos… É o que também deve ser feito com a nossa História! 



Ainda estou aqui, falando sobre isso… 

Dirigido por Walter Salles, Ainda Estou Aqui é um filme baseado na obra homônima e autobiográfica de Marcello Rubens Paiva. O livro aborda a relação do autor com sua mãe, Eunice Paiva, passando pela sua infância, durante a ditadura militar, até um passado mais recente, no qual Eunice já se encontrava com uma idade avançada. 


Tal qual a obra que lhe serviu como base, o longa Ainda Estou Aqui se inicia na década de 70 e traz para cena o cotidiano carioca de Eunice (Fernanda Torres) e seu marido, Rubens Paiva (Selton Mello), que tentam seguir uma vida normal durante a ditadura militar, buscando proporcionar sobretudo um ambiente agradável para seus filhos. Mas não dá para se distanciar completamente da realidade de um regime totalitário. Assim, em uma tarde supostamente comum, Rubens é levado por seis homens, a mando do Exército, para participar de um interrogatório. 


Rubens não volta para casa naquele dia. 


Um dia depois, Eunice, junto com uma de suas filhas, também é levada para um interrogatório, no qual é questionada sobre a participação do marido como aliado de grupos pró-redemocratização. Embora responda as perguntas prontamente, negando todas as acusações, Eunice é mantida presa durante cinco dias — sem mais notícias do seu marido. 


Ela retorna à casa… E permanece sem notícias do seu marido. 


Ela permanece sem notícias do seu marido. 





Um filme para doer… Para lembrar… 

Dizer que Ainda Estou Aqui é um filme que dói é chover no molhado. Mas, algumas vezes (muitas vezes, na verdade), as coisas precisam ser repetidas, relembradas, reforçadas. Então, uma vez mais: Ainda Estou Aqui é um filme que dói. Dói porque é necessário. Porque é verdade. Porque é sensível. Porque é História! 


Um filme que, assim como todo filme que se preze, só existe, porque a realidade existe. Se é para falar de Ainda Estou Aqui, precisamos falar também sobre a nossa realidade. 


Nos últimos anos, o nosso país temeu uma vez mais um regime de poder totalitário — com razão, afinal, uma tentativa de golpe realmente aconteceu. Mesmo que esse cenário não tenha, ainda bem, se concretizado, o último governo marcou anos sensíveis da nossa História. Em partes, pela questão de uma pandemia? Sim. Mas não só. Foram anos sensíveis, porque, apesar de uma pandemia, estávamos em um cenário de descaso com a vida, a segurança e a dignidade humana. Foram anos difíceis… Foi praticamente ontem… E, ainda assim, muita gente já se esqueceu sobre isso. 


Foi praticamente ontem e, ainda assim, parece que, às vezes, tudo o que aconteceu virou apenas números (alarmantes!) em uma notícia qualquer; em uma matéria na qual se passa o olho, se lamenta rapidamente e já se esquece no segundo seguinte. 


Essa é a reação diante de um período histórico que aconteceu há pouquíssimo tempo. Então, se a distância temporal nos afasta desse sofrimento real, no cotidiano, como será a reação aos horrores da nossa ditadura


Ainda Estou Aqui nos confronta com esse passado que, às vezes, tão facilmente é deixado para lá. O filme tira do papel os grandes números e as violentas atrocidades com as quais nos deparamos nos livros de História, durante a educação básica, e traz para a cena, para bem pertinho do nosso rosto a dor no olhar de uma mãe que vê o modo como tão brutal e desumanamente lhe roubaram sua segurança, sua família, sua vida. 


Aqui, um breve parênteses — necessário sim, porque a arte é gigante — para ressaltar a grandiosidade de Fernanda Torres em cena. Longe de ser apenas campanha, afinal, a temporada de premiação já acabou, mas… Ainda agora, depois de tanto tempo de já ter assistido a obra pela primeira vez, meu olho ainda se enche de água e minha garganta dá um nó ao me lembrar do olhar dela enquanto os eventos do filme se desenrolam. É um olhar de falta. Um olhar para dentro, mas que se externaliza de tal forma que parece que é um pedaço do meu coração que falta. 


A arte tem isso de grandioso, né? 


Nenhum de nós é capaz de entender a dor que a própria Eunice Paiva — assim como muitas outras famílias — sentiram e foram submetidas durante aquele período. Mas, com a arte de Marcelo, Walter, Fernanda e tantos outros envolvidos na produção desse filme… Com essa arte, a gente parece compartilhar uma dor que é do país todo, que corre na História desse território que a  gente pisa e que marcou e sempre vai marcar o que somos. 


Ainda Estou Aqui provoca esse sentimento ao nos aproximar da história dessa família, sabendo que o que vemos em cena, mesmo tão gigante e intenso, ainda é pequeno perto da realidade. Mas, em termos de arte e afeto, é notório o cuidado com o qual o filme foi desenvolvido por parte de cada um dos envolvidos. Em algum lugar mais analítico, em contraponto com todo esse sentir dolorido, é um acalento perceber como nosso cinema, mesmo com tantas adversidades, encontra espaço não só para te fazer potente e necessário, mas para se fazer também sensível. 


Ainda Estou Aqui dói. A nossa História dói. Por isso (e por muitas coisas mais), é preciso continuar falando. Seja nesse filme, seja em muitos outros filmes que tragam para a cena esse mesmo panorama. Seja em outras mídias. Seja em conversas cotidianas. Seja em discussões políticas. É preciso falar — com palavras, com imagens. É preciso falar para se fazer presente e se fazer presente para jamais esquecer: aquilo que tão dolorosamente fomos e que não queremos (e nem vamos) jamais voltar a ser! 


***

Ainda Estou Aqui (135 min) 

Direção: Walter Salles 

Roteiro: Murilo Hauser e Heitor Lorega 

Ano: 2024 

País: Brasil 

Gênero: Drama 

Elenco: Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello, Guilherme Silveira, Valentina Herszage, Luiza Kosovski, Bárbara Luz, Cora Mora, Maeve Jinkings, Charles Fricks, Dan Stulbach, Camila Márdila, Humberto Carrão, etc. 


Ainda Estou Aqui está disponível nos cinemas do Brasil.



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